Nota importante: este conteúdo é educativo e não substitui avaliação médica individual. Se você tem doença crônica, sintomas persistentes, usa medicações ou está gestante, procure orientação profissional antes de mudar sua rotina de exercícios.

Resumo rápido

  • Músculo como órgão endócrino: a contração muscular desencadeia a liberação de mais de 600 mioquinas conhecidas, que viajam pelo sangue em forma livre ou encapsuladas em vesículas musculares (Mu‑EVs).
  • Exerquinas e rede multiorgânica: além das mioquinas, outros tecidos geram sinais relacionados ao exercício (hepatocinas, adipocinas, cardiocinas, batocinas, neurocinas) que formam uma rede de comunicação integrada, reforçando a noção de que se exercitar beneficia o organismo como um todo.
  • Modulação pelo tipo de treino: modalidades diferentes ativam vias distintas; treinos aeróbicos (endurance) tendem a estimular o eixo AMPK–PGC‑1α, liberando BDNF e apelin, enquanto treinos de força ativam mTOR, favorecendo mioquinas como IL‑15.
  • Efeitos no metabolismo: certas mioquinas aumentam a sensibilidade à insulina (IL‑15 e SPARC), outras aceleram a lipólise (IL‑6, BAIBA, irisin) e várias promovem browning do tecido adiposo branco.
  • Cérebro e humor: exercícios elevam mioquinas neurotróficas como BDNF, cathepsina B e IGF‑1, que atravessam a barreira hematoencefálica e estimulam neurogênese e plasticidade sináptica.
  • Imunidade e longevidade: IL‑15 e IL‑6 reforçam a vigilância de células NK, enquanto irisina e oncostatin M modulam a polarização de macrófagos e Tregs; apelin, LIF e decorina atuam na regeneração muscular e óssea.
  • Treino e estilo de vida: regularidade, combinação de aeróbico e força, intensidade moderada a alta e recuperação adequada continuam sendo as chaves para obter a sinfonia de mioquinas; sono adequado e nutrição rica em proteínas e antioxidantes potencializam os efeitos.

1. Por que mioquinas importam e o conceito de exerquina

Inicialmente, o exercício era entendido apenas como gasto calórico e fortalecimento muscular. A partir de meados da década de 2000, estudos mostraram que pessoas fisicamente ativas tinham menor risco de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, declínio cognitivo e certos tipos de câncer. Surgiu então a hipótese de que o músculo liberava substâncias capazes de regular funções distantes. Esse conjunto de sinais foi denominado mioquinas, e pesquisas posteriores revelaram que não é só o músculo: coração, fígado, tecido adiposo marrom e o próprio cérebro também respondem ao exercício secretando moléculas chamadas exerquinas.

“O exercício regular reprograma essa rede secretora para um estado mais jovem e anti-inflamatório.”

Em 2026, já são mais de 600 mioquinas identificadas, cada qual com funções específicas — desde modular o metabolismo da glicose até controlar a resposta imunológica. A ciência também mostrou que o perfil secretório do músculo muda com o envelhecimento e doenças; em sarcopenia, há aumento de mioquinas pró‑inflamatórias e queda das protetoras. Por outro lado, exercício regular reprograma essa rede secretora para um estado mais jovem e anti‑inflamatório.

2. O que são mioquinas e como são classificadas

Mioquinas são proteínas, peptídeos, aminoácidos e outros sinais liberados pelas fibras musculares durante contração. Eles atuam de três formas:

Além das mioquinas, o termo exerquina abrange moléculas liberadas por outros tecidos em resposta ao exercício. As principais classes são:

Classe Tecido secretor Exemplos e funções
Cardiocinas Coração ANP/BNP regulam pressão e volume sanguíneo.
Hepatocinas Fígado FGF21 regula glicemia e metabolismo lipídico.
Adipocinas Tecido adiposo branco Leptina, adiponectina influenciam apetite e sensibilidade à insulina.
Batocinas Tecido adiposo marrom 12,13‑diHOME aumenta oxidação de ácidos graxos.
Neurocinas Sistema nervoso BDNF, lactato (via neurônios) modulam plasticidade e humor.

Essa visão integrativa reforça que o exercício atua como polipílula, gerando um coquetel de sinais que afeta praticamente todos os sistemas corporais.

3. IL‑6 e outros mensageiros clássicos

IL‑6: vilã ou heroína?

A interleucina‑6 (IL‑6) é uma das mioquinas mais estudadas. Em contextos de doença (obesidade, infecção), IL‑6 cronicamente elevada indica inflamação sistêmica; contudo, durante o exercício ela é liberada transitoriamente pelo músculo e cumpre papéis diferentes. Pesquisas recentes mostram que a IL‑6 do exercício:

Assim, IL‑6 não é simplesmente “boa” ou “má”; seu efeito depende da duração, intensidade e contexto. Em doenças, níveis crônicos são prejudiciais; no exercício, picos transitórios fazem parte da adaptação metabólica.

Outras citocinas inflamatórias e reguladoras

Além da IL‑6, o músculo secreta diversas interleucinas e fatores de crescimento que modulam inflamação:

4. Mioquinas emergentes e suas funções

Irisina (FNDC5)

Derivada do precursor FNDC5 e regulada por PGC‑1α, a irisina ficou famosa por induzir browning do tecido adiposo — transformando adipócitos brancos em células termogênicas — em modelos animais. Estudos recentes mostram que:

BAIBA (β‑aminoisobutírico)

BAIBA é um aminoácido liberado a partir do catabolismo de timina quando a expressão de PGC‑1α aumenta. Características importantes:

FGF21 (fator de crescimento fibroblástico 21)

Expressa no fígado, músculo, pâncreas e adiposo, FGF21 regula homeostase energética, glicose e lipídios. Camundongos knockout apresentam ganho de peso e resistência à insulina. Paradoxalmente, concentrações de FGF21 estão elevadas em obesidade e NAFLD devido à resistência a FGF21; o efeito do exercício sobre FGF21 varia conforme idade e condição.

Cathepsina B (CTSB)

Enzima lisossomal com funções neurotróficas. O exercício eleva CTSB, que atravessa a barreira hematoencefálica e induz BDNF no hipocampo; a ausência de CTSB impede o efeito do exercício sobre a memória.

Apelin

Peptídeo que se liga ao receptor APJ. A produção muscular de apelin diminui com a idade; exercícios de endurance de 8 semanas elevam suas concentrações. Apelin promove biogênese mitocondrial e autofagia via AMPK/AKT/mTOR, melhorando função muscular; meta‑análises mostram que o exercício aumenta a apelin sérica e melhora distúrbios metabólicos.

Myostatin e seus antagonistas (decorina e follistatina)

Myostatin inibe hipertrofia. O exercício reduz sua expressão e aumenta decorina; a inibição de myostatin aumenta PGC‑1α e biogênese mitocondrial. Decorina suprime Smad2/3 e favorece crescimento muscular. A follistatina antagoniza myostatin e é induzida pelo exercício, promovendo hipertrofia.

SPARC, OSM e FSTL1

SPARC: aumenta a tolerância à glicose e sensibilidade à insulina; é rapidamente elevado após exercícios de moderada a alta intensidade, retornando ao basal em poucas horas.

Oncostatin M (OSM): membro da família IL‑6, associado a efeitos anti‑tumorais e regulação do sistema imune; exercícios induzem pequenos aumentos imediatos na OSM.

Follistatin‑like 1 (FSTL1): promove angiogênese e cardioproteção; exercícios aumentam sua secreção, associada a melhor tolerância ao estresse cardíaco.

METRNL, Myonectin, Biglycan e 12,13‑diHOME

METRNL (Meteorin‑like): propriedades anti‑inflamatórias e regeneradoras; aumenta sensibilidade à insulina e modula metabolismo lipídico.

Myonectin (CTRP15): estimula captação de ácidos graxos; exercício restaura seus níveis em obesidade.

Biglycan (BGN): expressão cai com a idade; exercício restaura, ajudando a reduzir acúmulo de lipídios e estresse oxidativo.

12,13‑diHOME: lipocina derivada do adiposo marrom; aumenta captação e oxidação de ácidos graxos e melhora função cardíaca.

Mais de 600 mioquinas foram catalogadas, incluindo musclin, osteocalcina, lactato e IF1, cada uma com funções específicas.

5. Eixo músculo–cérebro e cognição

A comunicação entre músculo e cérebro envolve várias mioquinas:

Essas mioquinas ajudam a explicar por que programas de exercício reduzem o risco de demência e melhoram o humor. A intensidade e regularidade são importantes: sessões aeróbicas moderadas a intensas, combinadas com intervalos ou treinamento de força, parecem maximizar esses sinais.

6. Metabolismo de glicose e lipídios

A rede de mioquinas atua em sincronia para manter a homeostase energética. Principais ações:

Mioquina Principais ações metabólicas
IL‑15 Melhora tolerância à glicose e aumenta captação de glicose via GLUT4; estimula síntese proteica via PI3K/Akt/mTOR.
SPARC Aumenta tolerância à glicose e sensibilidade à insulina; participa da remodelação da matriz e angiogênese.
BAIBA Ativa AMPK, aumenta β‑oxidação hepática, reduz inflamação e induz browning adiposo.
METRNL Melhora sinalização da insulina, reduz inflamação e promove transporte reverso de colesterol.
Myonectin Aumenta captação de ácidos graxos pelos músculos e fígado.
Irisina Estimula browning, reduz lipogênese e melhora perfil lipídico.
IL‑6 Hormônio lipolítico, estimula mobilização de ácidos graxos; aumenta secreção de GLP‑1 e sensibilidade à insulina.
12,13‑diHOME Aumenta captação e oxidação de ácidos graxos, melhorando eficiência energética e saúde cardíaca.
Biglycan (BGN) Protege contra acúmulo de lipídios e estresse oxidativo.

Essas moléculas reduzem glicemia, aumentam gasto energético e combatem a resistência insulínica. A variedade de exercícios (aeróbico + força) contribui para um perfil mais completo de mioquinas.

7. Músculo, osso e sarcopenia

O músculo e o osso formam um eixo dinâmico; mioquinas e osteocinas mantêm o equilíbrio entre formação e reabsorção óssea. Nos últimos anos:

Sarcopenia envolve redução de mioquinas anabólicas (IGF‑1, IL‑15, BDNF) e aumento de myostatin e citocinas pró‑inflamatórias. Além do exercício, estratégias nutricionais (proteína adequada, leucina, creatina, vitamina D) e sono suficiente são essenciais.

8. Imunidade e prevenção de doenças

Mioquinas também modulam o sistema imunológico e podem influenciar a prevenção de câncer e infecções:

Estudos recentes mostram que treinos de força ou intervalados aumentam mioquinas com propriedades anticancerígenas; soro de indivíduos treinados inibe crescimento de células tumorais em cultura. Além da imunidade inata, mioquinas modulam adaptações cardiovasculares (ex.: apelin e LIF reduzem hipertrofia cardíaca) e podem influenciar a microbiota intestinal (irisina e BAIBA favorecem bactérias produtoras de butirato, reduzindo inflamação sistêmica).

9. Como otimizar mioquinas na prática

Combinação de modalidades

Nutrição e suplementação

Sono e recuperação

Durma 7–9 horas por noite para sustentar produção hormonal e recuperação muscular. Privação de sono reduz BDNF, IGF‑1 e aumenta citocinas inflamatórias.

Individualização

A resposta às mioquinas varia com idade, sexo, estado de treino e saúde. Mulheres podem apresentar maior resposta de IGF‑1 a treinos de resistência, enquanto homens secretam mais IL‑15. Adaptar volume e intensidade é crucial.

10. Tendências e terapias futuras

Pesquisas emergentes exploram o potencial terapêutico das mioquinas:

11. Perguntas frequentes

1. Treinos curtos (menos de 30 min) produzem mioquinas?

Sim. A maioria das mioquinas se eleva logo após o início da contração. No entanto, treinos mais longos e/ou intensos geram respostas maiores e por mais tempo. Mesmo sessões de 15–20 min, especialmente HIIT, aumentam IL‑6, irisin e SPARC.

2. Posso substituir exercício por suplementos de mioquina?

Não há “pílula do exercício”. Embora existam pesquisas sobre administração de mioquinas específicas (como FGF21 e irisin), ainda não existem suplementos seguros aprovados que reproduzam todos os efeitos do exercício.

3. Exercício faz mal para inflamação devido à IL‑6?

A IL‑6 crônica associada a obesidade e doença cardiovascular é diferente da IL‑6 aguda liberada durante exercício. O pico transitório de IL‑6 estimula vias metabólicas e anti‑inflamatórias; portanto, para indivíduos saudáveis o exercício regular reduz inflamação sistêmica.

4. Treinar em jejum aumenta a liberação de mioquinas?

Treinos em jejum podem aumentar oxidação de gordura e elevar IL‑6 e BAIBA, mas aumentam cortisol e podem prejudicar desempenho. Melhor fazer um lanche leve antes para treinar com mais intensidade.

5. Como o exercício ajuda na saúde mental?

Além de endorfinas, exercícios elevam mioquinas como BDNF, cathepsina B e irisin, que atravessam a barreira hematoencefálica e estimulam neurogênese e plasticidade sináptica. Treinos aeróbicos moderados e intervalados melhoram humor, memória e sono.

12. Referências

Xue M et al. Myokines in aging: a multi‑organ network perspective. Aging and Disease (2025).
Bettariga F et al. Exercise training mode effects on myokine expression in healthy adults: a systematic review com meta‑análise. Journal of Sport and Health Science (2024).
Cui X et al. The role and mechanisms of myokines in sarcopenia: new intervention strategies. Frontiers in Medicine (2025).
Li L et al. Exerkines and myokines in aging sarcopenia. Frontiers in Physiology (2025).
Liang Y et al. Exerkine and myokine-mediated multi‑organ metabolic network. Cell & Bioscience (2025).
Fujita T et al. Role of IL‑6, BAIBA e outros mensageiros do exercício. Fujita Medical Journal (2022).
Gupta R et al. Unlocking the potential of exercise: myokines in musculoskeletal aging and cognitive health. Frontiers in Aging Neuroscience (2024).
Kim D et al. Exercise, exerkines, and sarcopenia: new molecular insights. Diabetes & Metabolism Journal (2026).
Bettariga F et al. SPARC responses to exercise. Journal of Sport and Health Science (2024).
Zhang R et al. The role of myokines in sarcopenia and metabolic disorders. Aging and Disease (2025).